Entre o melhor e o pior


A edição do passado dia 25 de outubro do programa Ciência às 19 Horas foi diferente do que é habitual, não só pelo destaque conferido ao palestrante convidado, o Prof. Fabio Jatene, que na circunstância apresentou o tema Implantação de novas tecnologias no país e no cenário econômico mundial, como também pela homenagem que foi feita a seu pai, o famoso e saudoso Adib Domingos Jatene (Xapuri, Acre, 4 de junho de 1929 — São Paulo, 14 de novembro de 2014), médico (cirurgião torácico), professor universitário, inventor e cientista brasileiro.

Antes mesmo da palestra, coube ao Prof. Sérgio Mascarenhas (IFSC/USP) iniciar o pequeno período dedicado à lembrança da vida e obra de Adib Jatene, tendo sido acompanhado pelo Diretor do IFSC/USP, Prof. Tito José Bonagamba, pela futura Reitora da UFSCar, Profª Vera Hoffmann, e pelo Dr. Roberto Verzola, médico cardiologista e docente do Departamento de Ciências Fisiológicas - Laboratório de Fisiologia do Exercício (UFSCar), entre outros convidados.

Depois de ter recordado a vida e obra de Adib Jatene, o Prof. Sérgio Mascarenhas e o Diretor do IFSC/USP entregaram a seu filho, Prof. Fabio Jatene, uma placa de homenagem em reconhecimento à obra do famoso cirurgião torácico.

Filho de imigrantes árabes, Adib Jatene formou-se em medicina na Universidade de São Paulo, onde viria a se tornar professor. Conhecido e respeitado internacionalmente, além das dezenas de inovações no meio médico, como o inventor de uma cirurgia do coração que leva seu nome para tratamento da transposição das grandes artérias em recém-nascidos, e do primeiro coração-pulmão artificial do Hospital das Clínicas .

Jatene foi secretário estadual de Saúde no governo de Paulo Maluf e duas vezes ministro da Saúde durante o Governo Collor e, a última delas, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Foi membro da Academia Nacional de Medicina e foi agraciado com o Prêmio Anísio Teixeira, em 1991.

Já no que diz respeito à palestra proferida pelo filho do homenageado – Prof. Fabio Biscegli Jatene -, falar de tecnologia é sempre um assunto complexo, caso se decida falar de todos os campos da atividade, e muito mais complexo quando se abordam áreas específicas, como é o caso da medicina. Existem áreas que tiveram e têm ainda um desenvolvimento extraordinário, como, por exemplo, a aviação comercial, agricultura e petróleo, entre muitas outras, mas em outras áreas esses avanços não ocorreram nem ocorrem na mesma proporção.

Para quem ainda não o conheça suficientemente, o Prof. Fabio Jatene é Professor Titular de Cirurgia Torácica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Diretor do Serviço de Cirurgia Torácica do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), e Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, com especialização em Cirurgia Torácica e Cirurgia Cardiovascular. É autor de 219 artigos científicos em revistas científicas nacionais (176) e internacionais (43), foi editor de 7 livros e manuais na área e autor de 52 capítulos em livros nacionais (43) e internacionais (9), tendo recebido 18 prêmios ao longo de sua carreira

Na área profissional do Prof. Fabio Jatene – que concedeu à Assessoria de Comunicação do IFSC/USP uma pequena entrevista antes de iniciar sua palestra -, que é a cirurgia do coração – cirurgia torácica e cardiovascular –, é um fato que a grande maioria dos equipamentos dotados de um maior avanço tecnológico está disponível, observando-se, assim, uma certa heterogeneidade nessa área do conhecimento, a par de outras. Não digo que não é possível que se desenvolvam, no Brasil, equipamentos de ponta que necessitamos para a nossa missão, para a nossa profissão, mas o que acontece é para que você consiga desenvolver e utilizar esses equipamentos existe uma série de requisitos: precisam ser de boa qualidade, o mercado precisa ser atrativo, até porque, se assim não for, os empresários e as restantes pessoas interessadas em desenvolver e comercializar esses equipamentos acabam por se afastar. E nesta condição, ficamos defasados em relação a todo esse processo. Estamos avançando, mas é preciso reconhecer que esses passos ainda são muito tímidos, salienta o cirurgião.

Para Jatene, o fato de não termos tecnologia própria na área médica é um obstáculo até para que se possam diminuir os custos decorrentes de intervenções cirúrgicas, neste caso concreto na área cardiovascular, o que, para nosso entrevistado, causa algum constrangimento em prestar esse tipo de serviço. Esse foi um dos motivos que levou o InCor a desenvolver, nos últimos anos, um projeto chamado Inova-InCor, que é a tentativa de se avançar tecnologicamente na área da cardiopneumologia, que congrega os dois principais focos do Instituto.

E essa é uma iniciativa que não é restrita ao InCor, mas a outras áreas que também têm desenvolvido iniciativas semelhantes. Existe a Agência USP de Inovação, com a qual colaboro, que tem trabalhado fortemente nisso. Mas a ideia do Inova-InCor é criar possibilidades para dentro de nosso ambiente nas várias áreas relacionadas ao Instituto, para que possamos ter avanços significativos na área tecnológica, comenta nosso entrevistado, que acrescenta: Há um enorme interesse, tanto interno - no Instituto -, como em companhias e centros de desenvolvimento externos, no fomento de parcerias com o intuito de auxiliar ao desenvolvimento de equipamentos e projetos mais avançados. E isso é muito interessante! Nós iremos ter agora, neste mês de novembro, um simpósio com a participação do Instituto e de representantes do governo da Coreia do Sul, através de algumas de suas indústrias, com o intuito de ajudar a desenvolver tecnologia exatamente dentro da área médica e principalmente dentro da área da cardiopneumologia . A ideia é que essa parceria seja uma via de mão-dupla. Eles têm muita tecnologia e nós temos necessidade dela; mas, também temos algo para mostrar para eles – nossa experiência. A ideia é incorporar interesses. Como nós temos uma população muito numerosa, tudo isso talvez possa interessar a eles, até porque a nossa mão-de-obra é altamente especializada.

A despeito do atraso verificado, o Brasil tem agora a consciência do que aconteceu anteriormente e do que precisa acontecer a partir de agora e, a partir daqui, tentar tirar esse atraso da melhor maneira. Fabio Jatene é enfático ao afirmar que é importante que se tenha consciência que não só o InCor, como os outros institutos, estão com essas iniciativas de inovação e avanços tecnológicos voltados para suas áreas de atuação, em todas as áreas conhecimento. O ponto positivo desse grande processo é que hoje temos consciência da importância em se poder avançar, sublinha Jatene.

Comparativamente ao que se passa no exterior, o atual estado da arte na cirurgia torácica no Brasil pode ser dividido em duas partes Em relação à possibilidade de assistência, ao atendimento, o Brasil está praticamente no mesmo nível que ocorre no exterior e isso é confirmado pelo Prof. Fabio Jatene. Temos os mais modernos equipamentos, temos as técnicas desenvolvidas e temos os profissionais altamente capacitados para empregá-las.

Contudo, o que chama a atenção, na parte assistencial, é que o Brasil tem – da mesma forma que no assunto abordado acima, relacionado com o desenvolvimento tecnológico – diferentes possibilidades de oferecimento dessa tecnologia a toda a população. Por exemplo, existem hospitais que são considerados entre os melhores do mundo e, por outro lado, existem hospitais com uma qualidade bastante precária, ou seja, existem dificuldades de conseguir dar o melhor a todos que necessitam. Para o Prof. Fabio Jatene, essa situação pode ser resumida através de uma frase simples: “Nós temos o melhor no Brasil? Temos! Para todos? Ainda não!...”

(Rui Sintra – jornalista)